Numa manhã de 1964, um jovem agricultor desceu de um carrinho na estrada de chão que cortava as terras vizinhas à Fazenda Santa Inês, próximo a Comunidade de Cinco Marcos, no Município de Janiópolis. Não havia carro, não havia asfalto, não havia pressa que a vida no campo permitisse. Havia apenas trabalho, café e a certeza de que aquela terra, recém-chegada à sua vida, se tornaria seu lugar no mundo.

Mais de sessenta anos depois, no último sábado, 13 de junho, esse mesmo homem foi recebido de pé, em meio a aplausos, abraços e lágrimas, no Centro de Eventos do Parque de Exposições de Janiópolis. Não era mais o jovem do carrinho: era Anízio Lopes, 90 anos, cercado por filhos, netos, bisnetos e por uma comunidade inteira que aprendeu, com ele, o valor da honestidade e do trabalho.

A história de Anízio começa longe de Janiópolis, em Araraquara, interior de São Paulo, onde nasceu em 8 de junho de 1936, filho de Ana de Freitas Lopes e Francisco Vieira Lopes. A infância foi dura, marcada por uma rotina de trabalho que não poupava os mais jovens e por uma simplicidade que, segundo ele mesmo costuma lembrar à família, ensinava mais do que qualquer escola.

Ainda adolescente, deixou São Paulo rumo ao Paraná, instalando-se em Cambé. Foi lá que conheceu Manoelina Gonçalves Lopes, a sua companheira de vida. O casamento viria a gerar cinco filhos ainda naquela cidade, Regina Célia, Claudino (Nenê), Ilso, Vilma e Maurício.

Em 1964, Anízio tomou a decisão que mudaria definitivamente sua trajetória, seguir o irmão, Valdemar Vieira Lopes, que havia comprado a já tradicional Fazenda Santa Inês. A região vivia o auge do ciclo do café, e foi nesse cenário que a família Lopes se estabeleceu, na época em que Janiópolis ainda dava seus primeiros passos como cidade.

Era um tempo sem máquinas, sem estradas pavimentadas, sem facilidades. O café era colhido na roça e levado até a cidade em carrinho de mão ou puxado por charrete, o mesmo meio que servia para as idas ao comércio local. Só depois de muitos anos de trabalho Anízio conseguiu comprar seu primeiro veículo, um Jeep, símbolo de uma conquista construída sobre décadas de sacrifício.

Foi em Janiópolis que o casal teve mais duas filhas, Edna e Liliane, sendo que esta última faleceu ainda criança, uma dor que a família carrega com respeito e memória.

Ao longo da vida, Anízio acompanhou de perto as transformações da economia regional, vivendo na pele os ciclos do café, do algodão e, mais tarde, da soja. Mas, independentemente da cultura que sustentava a família, ele jamais abandonou os hábitos que aprendera desde menino, criava vacas, porcos e galinhas para o consumo da própria casa e mantinha uma horta que, aos 90 anos, ainda cultiva pessoalmente.

Foi com muito esforço que conseguiu, anos depois, comprar uma propriedade ao lado da Fazenda Santa Inês, terra que se tornaria, definitivamente, seu lar. É lá que reside até os dias de hoje.

Se o trabalho na lavoura definiu seu sustento, foi o futebol que definiu sua alma. Torcedor fervoroso do São Paulo Futebol Clube, Anízio transformou essa paixão em algo que ultrapassou os limites do entretenimento, fundou seu próprio time, o Santa Inês. Não mediu esforços para manter a equipe viva.

Levava os jogadores, muitos deles jovens de Janiópolis e Boa Esperança, para enfrentar adversários em cidades vizinhas, fazendo do futebol amador uma ferramenta de integração social. O Santa Inês chegou a disputar competições amadoras na região de Goioerê, deixando registrada na memória de gerações o nome que Anízio ajudou a construir, dentro e fora de campo.

Católico praticante, Anízio também participou ativamente de grupos de casais em sua comunidade Santa Inês, reforçando valores que sempre buscou transmitir aos filhos. Entre todos os ensinamentos, um se destaca na lembrança de quem o conhece, a honestidade como princípio inegociável de vida.

No último sábado, 13 de junho, a história que começou em Araraquara e atravessou Cambé, café, algodão, soja e gerações de futebol amador, ganhou um novo capítulo. No Centro de Eventos do Parque de Exposições, a numerosa família de Anízio Lopes se reuniu para homenagear o patriarca em uma festa marcada pela emoção e pelo reconhecimento.

Mais do que uma celebração de aniversário, o encontro foi um tributo a uma vida que ajudou a moldar a própria identidade de Janiópolis, no agricultor, no torcedor que fundou um time, no avô que ainda cuida da horta, no homem que fez da simplicidade uma forma de grandeza.

Aos 90 anos, Anízio Lopes segue sendo o que sempre foi, testemunha viva da história do município e prova de que a honestidade e o trabalho, quando praticados com constância, constroem legados que atravessam gerações.

Com o irmão Genésio Lopes

Com os netos em pose especial

Anízio com os bisnetos

Anízio com a esposa Manoelina (in memorian)

Anízio (terceiro agachado) e o time do Santa Inês